Por: Alexandre Szklosem comentários

A preocupação com os recursos energéticos fósseis sempre focou a escassez. Recursos fósseis são considerados não renováveis na escala de tempo humana, mas não são necessariamente exauríveis. O carvão é a fonte primária motor do século 19, de tal forma que W.Jevons anunciava,em 1865, o fim da Revolução Industrial inglesa em função do seu esgotamento. Isso não aconteceu, assim como não ocorreu o esgotamento das reservas de petróleo, previsto, em 1972, pelo Clube de Roma e corroborado por King Hubbert,ao quase acertar o pico da produção de petróleo convencional dos Estados Unidos. Não cabe aqui explicar porque essas fontes fósseis ainda têm reservas com perspectivas de aumento. Importa dizer que o estoque finito de hidrocarbonetos fósseis ainda não é a limitação para seu uso. Mas existem outros limitantes: entre eles, questões geopolíticas e, sobretudo, o desafio de garantir o acesso de todos a serviços energéticos de qualidade, sem comprometer o meio ambiente.

Recentemente, num texto escrito em parceria com Pedro Rochedo, André Lucena e Roberto Schaeffer, ressaltei que a elaboração de cenários energéticos de longo prazo envolve a necessidade de apreender que as opções tecnológicas são dinâmicas, isto é, às análises dos sistemas tecnológicos devemos incorporar as curvas de aprendizado de cada alternativa e mesmo da combinação de alternativas, diante de cadeias energéticas estruturadas de forma integrada. Em termos simplificados, algumas opções, ainda que mais custosas no curto prazo, podem ter uma maior taxa de aprendizado, caso seus investimentos sejam antecipados.

Precisamos, destarte, entender essa dinâmica e afetá-la. Precisamos decidir. A sociedade necessita decidir, frente às escolhas, como dará forma ao seu mundo e ao que dele, inexoravelmente, sobra (com sua ainda capacidade de afetar o meio ambiente).Temos estudado esse tema na Coppe para várias alternativas tecnológicas: fontes alternativas, captura de carbono, baterias automotivas etc. Pensar e planejar o longo prazo significa antecipar certas opções de conversão de energia, ainda que não estejam maduras para o horizonte mais breve. Foi, assim, aliás, com o carvão e o petróleo.

Eis uma história curiosa: em 1898, ocorreu, em Nova York,o Primeiro Congresso Mundial de Planejamento Urbano, cujo tema eram excrementos dos cavalos usados para mobilidade nas grandes cidades. A questão ainda incluía congestionamentos, acidentes e o que fazer com as carcaças dos animais.Ora, cenários para 1950,publicados naquela época no jornal londrino The Times, indicavam que as ruas da grande capital teriam pelo menos 9 pés de excremento de cavalo!A perplexidade com a falta de opções ao problema até abreviou os dias do congresso de Nova York(concluído, em fracasso, em três dias).

Não obstante, em menos de 20 anos, motores Otto substituiriam o cavalo nas ruas de Nova York. Muitos fatores explicam esse fato: a evolução das máquinas térmicas desde o início do século 19; o modelo fordista de produção; o desenvolvimento da indústria de petróleo dos Estados Unidos, apoiada, em grande parte, pelo governo desse país, de forma direta ou indireta, mediante investimentos em infraestrutura urbana. Mas os especialistas do The Times não previram essa mudança.

A história do homem, uma espécie de centauro – meio homem, meio máquina térmica – que recebe do titã Prometeu o fogo, também é a história de decisões e antevisões, além do aprendizado e do conhecimento, simbolizados pelo centauro Quíron. Precisamos decidir com conhecimento.

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