O que pode haver em comum entre a necessidade de reduzir o consumo de energia em favelas cariocas e resolver o problema da falta de água em Londres e da escassez de energia em áreas densamente povoadas da China? A resposta pode estar no talento de alunos de cinco universidades, de quatro continentes, na busca por soluções para questões locais referentes à sustentabilidade. As propostas desses estudantes serão apresentadas no encontro da programação paralela da Rio+20, que será realizado no sábado, 16 de junho, das 16h às 18h30, no estande do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), no Parque dos Atletas, na Barra da Tijuca.

O Brasil será representado por um grupo formado por alunas de mestrado e doutorado da Coppe/UFRJ e da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Poli/UFRJ). As outras equipes vêm das universidades de Tsinghua (China), de Cambridge (Inglaterra), de Stellenbosch (África do Sul) e da Universidade Técnica de Munique (Alemanha), além da comunidade Siemens Future Influencers(multinacional).

As equipes vão apresentar soluções para desafios de sustentabilidade das regiões onde vivem e, com o apoio de especialistas, debater e identificar meios para que suas propostas locais contribuam para enfrentar problemas globais. A Siemens vai oferecer 10 mil euros para financiar os projetos especialmente promissores e o seu futuro desenvolvimento.

O evento Students for Sustainability (Estudantes para a Sustentabilidade) é promovido pela Siemens, em parceria com o Pnuma e com o apoio da Coppe/UFRJ.  

 Morro Santa Marta foi objeto de estudo do grupo brasileiro

O trabalho do grupo brasileiro visa à redução dos gastos com energia elétrica e foi situado no morro Santa Marta, em Botafogo, onde moram cerca de  4 mil pessoas, em aproximadamente 1.200 residências. A comunidade foi a primeira do Rio de Janeiro a receber uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

Com a implantação das UPPs em áreas que anteriormente eram dominadas pelo tráfico de drogas, vários moradores dessas comunidades, que utilizavam ligações elétricas clandestinas, passaram a pagar contas de energia.

“Nossa proposta foi estudar a realidade das comunidades que receberam as UPPs. Com a formalização do fornecimento de energia, as pessoas ganharam mais segurança, mas também um custo, que começou baixo e se tornou alto”, explica a estudante Victória Santos. Mestranda do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, ela integra o grupo ao lado de Beatriz Watanabe, doutoranda do Programa de Engenharia de Produção da Coppe/UFRJ; Ana Carolina Deveza, graduanda de Engenharia Ambiental da UFRJ; e Ana LauraMoreira de Souza, graduanda de Engenharia Civil da UFRJ.

Sob orientação do professor André Lucena, do Programa de Planejamento Energético da Coppe, as estudantes elaboraram o projeto Waste management and energy supply in Rio’s favelas: the integration of different approaches, que propõe diferentes alternativas para redução do consumo de energia, como a implantação de coletores solares para aquecimento da água do banho; a instalação de sistemas fotovoltaicos para geração de energia a partir do sol; a construção de telhados verdes; e a implantação da coleta seletiva de lixo associada à instalação de biodigestores para produção de energia a partir de biogás.

Estudo projeta cenários até 2030

As estudantes consideraram aspectos como a previsão de crescimento da população e do consumo de energia no período 2013–2030. De acordo com Victória, o projeto contempla um conjunto de medidas que começa pela coleta e seleção do lixo. “O reciclável seria vendido, e o lixo orgânico iria para a compostagem ou poderia gerar biogás através de biodigestores. O estudo dimensionou quanto de lixo orgânico seria produzido, qual a capacidade de um biodigestor, quanto estes gerariam de eletricidade e qual a redução do custo que esses biodigestores provocariam na conta de luz convencional dos moradores”, explica Victória. A adoção do biodigestor resultaria em uma economia no consumo de energia da ordem de 43 MWh ao ano até 2030.

Todas as projeções feitas no trabalho consideram o período de 18 anos, partindo da premissa de que as ações sejam implantadas a partir de 2013. Para desenvolver o estudo, o grupo da UFRJ utilizou dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Na avaliação do grupo brasileiro, os temas abordados no projeto têm relevância em todo o mundo e as soluções propostas podem ser aplicadas em comunidades pobres e ricas. O estudo fornece uma visão sustentável das favelas e mostra que é possível viver nelas com menores custos de energia e melhor qualidade de vida.

Para o orientador do grupo, projetos como esse resultariam em uma série de vantagens para as comunidades. “São benefícios diretos como a redução das contas de luz e ganhos adicionais como a implantação da coleta seletiva de lixo e a melhoria da qualidade de vida dos moradores”, explica o professor André Lucena. Mais limpeza, mais saúde e geração de renda.

Com a pacificação de outras comunidades, o projeto poderia ser uma espécie de piloto para ser replicado em novas áreas, ou seja, um protótipo para políticas maiores. Mas tudo depende, é claro, de financiamento para implantação.

Concluídos os projetos, o próximo desafio de cada grupo será defender suas propostas em apenas 8 minutos, conciliando aspectos ambientais e sociais. Projetos que, se implantados, podem representar uma notável contribuição para comunidades de baixa renda de vários continentes. E um legado concreto da Rio+20 para a saúde do planeta.