O Brasil precisa com urgência adotar mais programas de incentivo ao transporte coletivo e usar menos os veículos particulares. Essa foi a conclusão a que chegaram os participantes do segundo painel “Mobilidade e Transporte Sustentável” do ciclo de palestras realizado hoje, no auditório da Coppe/UFRJ, na Cidade Universitária, como parte da conferência “O Futuro Sustentável – Tecnologia e Inovação para uma Economia Verde e a Erradicação da Pobreza”.

De acordo com o professor do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, Roberto Schaeffer as cidades privilegiam o transporte privado em detrimento do público. “O maior gargalo da mobilidade urbana e do transporte sustentável está no uso excessivo dos carros particulares. O aumento das emissões é uma das consequências da falta de investimento em transporte público”, sentenciou.

O professor do Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ Márcio D´Agosto, reforçou o discurso ao afirmar que 28% do consumo final de energia do Brasil estão concentrados no transporte rodoviário.

“Além da questão da mobilidade urbana, o transporte rodoviário é um indutor do processo de poluição. Quanto mais carros tivemos circulando nas ruas, maior será o consumo de combustível e a emissão de dióxido de carbono e de outros poluentes. A sustentabilidade está apoiada em três pilares: o desenvolvimento econômico, o desenvolvimento social e a preservação ambiental. Se os três não estiverem juntos, nada acontece”, destacou D´Agosto.

O professor citou ainda um trabalho desenvolvido por alunos e pesquisadores da universidade no qual foi constatado que se a população do Rio de Janeiro deixasse de usar veículos particulares e utilizasse mais ônibus, por exemplo, o consumo de energia na cidade cairia em até 10 vezes. “Nós não temos como dimensionar quanto gastamos exatamente de energia hoje só com os carros particulares. Mas chegamos a essa conclusão levando em conta que, em média, um automóvel percorre dez quilômetros com um litro de combustível transportando apenas uma pessoa, enquanto um ônibus percorre 2,5 quilômetros por litro, com 60 pessoas”.

Os dados desse estudo também foram apresentados ontem a representantes dos governos estadual e municipal durante palestra do professor no evento Megacidades, no Parque dos Atletas. “O Brasil tem condições de produzir combustíveis mais limpos a curto prazo e a Coppe/ UFRJ está acompanhando esse processo, procurando desenvolver tecnologias que possam auxiliá-lo”, afirmou D´Agosto.

O debate ganhou força com a participação do professor do programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, Rômulo Orrico, para quem a mobilidade urbana é um direito do cidadão. “Sofremos com o desperdício de espaço. O espaço público é usado de forma desordenada. A ideia de que tudo acontece no Centro da cidade é um erro. No Rio, por exemplo, 70% das pessoas que estão nos ônibus que passam pela Avenida Brasil descem antes da Rodoviária e todos os ônibus vão até o Centro”, destacou o especialista.

A diretora do projeto Cidades para Pessoas, a jornalista Natália Garcia, contou experiências pessoais para defender a substituição dos veículos pelas bicicletas. Para a jornalista, a mobilidade urbana deve levar mais em conta a circulação das pessoas do que a dos carros. “É preciso trazer a escala humana para as cidades e para os projetos de mobilidade urbana. Hoje no Brasil, a sinalização de trânsito se “comunica” com quem está de carro e muito pouco com quem está a pé”, criticou Natália.

O painel contou ainda a participação especial de Marcel Steps, professor de Urbanismo na Bélgica e secretário geral do Instituto para as Cidades em Movimento (IVM). Em sua palestra, Steps destacou que não se deve privilegiar um único tipo de transporte.