Países com dimensões continentais, populações volumosas e recursos naturais abundantes, Brasil e China têm mais em comum do que a maioria das pessoas imagina. No encontro “Brasil e China: os Grandes Desafios”, representantes do meio acadêmico, governo e ONGs dos dois países discutiram como conciliar desenvolvimento econômico e sustentabilidade. O evento desta terça-feira, dia 19, fechou o ciclo de palestras promovido pela Coppe/UFRJ desde o início da Rio+20. Ao todo, foram mais de 22 painéis e 50 palestrantes debatendo o tema sustentabilidade.

No encontro de hoje, aberto pelo vice-diretor da Coppe/ UFRJ, Aquilino Senra, o vice-ministro de Ciência e Tecnologia da China, Wang Weizhing, disse que o país foi um dos primeiros a integrar a Agenda 21 e entre as prioridades chinesas está a sustentabilidade. “Vamos buscar a economia verde, não temos outro caminho”, assumiu. Porém, Weizhing reivindica metas diferenciadas para países em desenvolvimento como Brasil e China. “Nossos países podem e devem avançar conjuntamente, vivemos momentos semelhantes e podemos ter mais parcerias em diversas áreas”, disse o representante do governo chinês.

Para Álvaro Prata, secretário da Secretaria Nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Setec), o maior desafio do Brasil no campo da sustentabilidade é se tornar uma potência tecnológica. A distância entre capacidade de inovação e potencial de desenvolvimento é paradoxal aqui. “Não nos surpreendemos quando alguém diz que o Brasil é um país rico, mas também não ficamos surpresos quando alguém diz que o Brasil é um país pobre. Porque temos as duas realidades. Para mudar o cenário negativo o único caminho é a educação”, disse Prata.

Ainda segundo o secretário, para explicar o quadro, o raciocínio é simples: “é preciso inovar, para inovar é preciso ciência e para termos ciência é preciso termos educação. Neste sentido temos que seguir o exemplo dos nossos amigos chineses. No Brasil, apenas 14% dos jovens entre 16 e 24 anos estão na universidade. Deste total, mais da metade estão fazendo cursos como pedagogia, administração etc. Apenas 6% dos formandos brasileiros estão na cadeira de engenharia. Na China 30% dos formandos são engenheiros. Precisamos muito deste tipo de profissional para desenvolver tecnologia e pular definitivamente para o grupo de países desenvolvimento”, disse Prata.

Outro gargalo brasileiro é falta de tradição empresarial de investir em novas tecnologias. “O Brasil tem tecnologia de ponta em três áreas importantes e difíceis: produção de petróleo e gás, produção de aviões e nos agronegócios. Mas, nesses casos, o governo, por meio da Petrobras, Embraer e Embrapa, teve papel decisivo. Os empresários brasileiros não arriscam investir por conta própria em novas tecnologias. Os programas de subsídio do governo são pouquíssimo utilizados, porque a aprovação dos recursos depende de análises fiscais que, por vezes, não interessam às empresas. Apenas 620 empresas utilizam atualmente o fundo que o ministério destina a novas tecnologias”, explicou o secretário.

Este é outro ponto em que a China está à frente dos brasileiros. Os empresários chineses investem em novas tecnologias e contam com o apoio do governo. Por outro lado, para Adriano Proença, professor do Programa de Engenharia de Produção da Coppe/UFRJ, o exemplo da força estatal chinesa para apontar novos rumos nas inovações mais necessárias para a sociedade deve ser levado em conta. “O esforço do governo chinês no investimento de tecnologias renováveis, ao fazer muito bem a ponte entre universidade e setor produtivo, é uma prova que, depois do Lehman Brothers, o capitalismo está sendo reformulado”, afirmou Proença.

Após o encontro, a delegação chinesa visitou os laboratórios da Coppe/ UFRJ de Tecnologia Enzimática, Levitação Magnética e Instrumentação Oceânica.