O físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da USP e um dos revisores do Volume 1 do Relatório,  explica que ainda há muita lacuna no conhecimento sobre o papel dos oceanos na regulação do clima, na incorporação aos modelos de dados sobre o comportamento dos sistemas biológicos e na resposta do sistema climático ao aquecimento global. Ainda não está claro, por exemplo, como este pode impactar os eventos El Niño e La Niña, fenômenos de aquecimento (no primeiro caso) e esfriamento (no segundo caso) das águas do Oceano Pacífico Tropical que comprovadamente têm grande influência nos padrões de chuva no Brasil, estando envolvidos na maioria dos eventos climáticos extremos que ocorrem no país. Ambos são fenômenos associados à variabilidade natural do clima, que podem ser impactados pelo aquecimento da temperatura da atmosfera -  mas de que maneira ainda não se sabe.

Há estudos indicando mudanças no comportamento de El Niño nas últimas décadas, com o aparecimento de um El Niño anômalo no Pacífico Central, que pesquisadores japoneses apelidaram de El Niño “Modoki” (falso El Niño). “Estudos recentes mostram que a frequência desse El Niño tipo “modoki” tem aumentado nas últimas décadas, coincidindo com o aquecimento global”, comenta Tercio Ambrizzi, diretor do IAG/USP.  O curioso é que o El Niño anômalo parece enfraquecer os efeitos de seu “primo” convencional – o que levanta mais dúvidas sobre o que poderia acontecer com o clima no Brasil.

Da mesma forma, nos últimos eventos de La Niña, em 2007/8 e 2010/11, observou-se uma inversão de padrões pluviométricos no sul/sudeste do Brasil (geralmente secas no sul/sudeste eram acompanhadas de chuvas intensas no norte/nordeste em anos de La Niña, mas naqueles últimos eventos o padrão foi o oposto).

Paulo Artaxo exemplifica com o comportamento recente da precipitação pluviométrica na Amazônia. “Nos últimos dez anos observamos uma seca muito forte em 2005, uma segunda em 2010; uma cheia igualmente forte em 2009 e outra cheia recorde em 2012. O conjunto desses quatro eventos pode talvez indicar um aumento da freqüência de eventos climáticos extremos na Amazônia. Isso está previsto pelos modelos climáticos, mas do ponto de vista observacional ainda temos que confirmar.” Para ele, estes são indicativos importantes, que devem servir de alerta para o governo e a sociedade brasileira, “porque vamos sofrer prejuízos socioeconômicos importantes se a tendência de aumento da frequência de eventos climáticos extremos se confirmar”.

Especificamente no caso brasileiro, faltam pesquisadores em diversas áreas importantes, como a paleoclimatologia, essenciais para fornecer conhecimentos que permitam avaliar a variabilidade natural do clima.  Faltam também redes de observação que forneçam informações compatíveis com as escalas dos biomas brasileiros. “Há carência de informações críticas para determinados biomas, como o Pampa, o Pantanal e a Caatinga”, diz o relatório. Um volume maior de informações se encontra na Amazônia e, secundariamente, no Cerrado. E só recentemente têm sido desenvolvidos estudos na Mata Atlântica, mas ainda concentrados em algumas poucas áreas.